Arquivo do mês: dezembro 2010

Vinho que acaricia

 

Alfredo, um homem calmo, pacato, mas frio e calculista. Não aceitava a personalidade que tinha. Sujeito magrela e sólido. Mas Alfredo era um homem rico, podia sair com todas as mulheres, provar de todos os pratos da culinária. Ao mesmo tempo em que Alfredo não sabia escolher uma bebida de boa qualidade, assim também agia para com as mulheres. Este homem tinha duas características que considerava incontestável: a de persuadir com facilidade as pessoas, principalmente mulheres, e mentir com total eficácia e naturalidade. Isso era nato. Alfredo saiu com muitas mulheres e a última foi Martha, uma linda e talentosa garçonete do maior bar de Londres. Alfredo visitou o bar novo da cidade, onde avistou uma mulher de comportamento fino e humilde. Ele nunca viu duas características tão reunidas em um só ser, não daquela maneira.

A mulher se chamava Mathilda. Ela não estava vestida como uma visitante do novo bar. Estava envolvida em uma modesta saia e em uma blusa na cor bordô, longa que quase chegava a cobrir usas mãos. Seus cabelos caracolados estavam presos a um rápido coque que mostrava por completo a sua delicada nuca. Estava ela segurando uma taça e provando de vários tipos de vinhos. Ela era uma gourmet, degustava de todos vinhos que seriam servidos naquele famoso bar. E ganhava bem por isso. Alfredo tomou coragem e chamou: “- Carmem!” Ela não o ouviu e ele a chamou mais uma vez pelo mesmo nome. Um moço que estava próximo dele o interrogou: “- Sr., o nome dela não é Carmem.” Então Alfredo disse: “- Eu sei rapaz.” E o moço indagou: “- Então por que a chama por esse nome?” Ele respondeu: “Por que ela vai pensar que eu a acho parecida com alguém. Ela virá até a mim e dirá  que estou enganado, assim revelando o seu verdadeiro nome. Eu quero conhece-la rapaz.”. O jovem ficou boquiaberto com tamanha sagacidade do homem. Alfredo viu-se perturbado pela beleza da moça. Mesmo sabendo que o sexo deveria ser explorado com delicadeza, emoção, amor, ciúmes, Alfredo encontrou-se em outro estado completamente diferente do que costumava estar. Pensou em várias coisas obscenas ao ver aquela mulher. Ele observava como a mulher segurava a taça de vinho, a maneira virtuosa de como ela se deliciava com o líquido. Alfredo, com os olhos fixos no corpo da gourmet, imaginou-se como aquele vinho, intenso, forte e nobre. Toda a cor do vinho demonstrava como ele era. Quando a moça tocou a borda da taça nos lábios, ele ficou trêmulo e observou em poucos segundos como o líquido acariciava a borda da taça e encontrando os lábios da moça. Ele imaginou-se como estivesse se dissolvendo todo, explodindo num deleite fatal.

Alfredo foi ao banheiro, seu lábio estava bastante vermelho, ele o enxergava no espelho. Sentiu-se um psicopata, nunca imaginou comporta-se daquele modo.

 


Mesmo após a sua morte física, Elis Regina e sua interpretação estão rentes aos ouvidos, arquivadas em muitas memórias.


 

Não quero lhe falar, meu grande amor, das coisas que aprendi nos discos. Quero lhe contar como eu vivi e tudo o que aconteceu comigo. Viver é melhor que sonhar, eu sei que o amor é uma coisa boa. Mas também sei que qualquer canto é menor do que a vida de qualquer pessoa…Por isso cuidado meu bem, há perigo na esquina. Eles venceram e o sinal está fechado prá nós que somos jovens. Para abraçar seu irmão e beijar sua menina na rua. É que se fez o seu braço, o seu lábio e a sua voz.

Você me pergunta pela minha paixão. Digo que estou encantada com uma nova invenção.  Eu vou ficar nesta cidade, não vou voltar pro sertão. Pois vejo vir vindo no vento o cheiro da nova estação. Eu sei de tudo na ferida viva do meu coração.
Já faz tempo eu vi você na rua, cabelo ao vento, gente jovem reunida. Na parede da memória essa lembrança é o quadro que dói mais. Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo o que fizemos. Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais. Nossos ídolos ainda são os mesmos e as aparências não enganam não. Você diz que depois deles não apareceu mais ninguém. Você pode até dizer que eu ‘tô por fora’, ou então que eu ‘tô inventando’. Mas é você que ama o passado e que não vê. É você que ama o passado e que não vê que o novo sempre vem. Hoje eu sei que quem me deu a idéia de uma nova consciência e juventude. Tá em casa guardado por Deus contando vil metal. Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo, tudo, tudo o que fizemos. Nós ainda somos os mesmos e vivemos. Ainda somos os mesmos e vivemos. Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais.


Talvez isso deva ser Amor



Tão grandiosa é a saudade. Mas, como muitos comerciais dizem: “que toda saudade tenha uma reencontro”.  Um sentimento é exatamente o que preciso agora e uma sensação seria de exclusiva importância. O cômico é que agente anda por aí feito cigano esperando ou procurando esse sentimento e, ao mesmo tempo, a sensação nos deixa comovidos e surpresos com o que acontece nessa estrada. Nós procuramos pagar a conta do psicólogo, do analista pra saber quem somos…Mas agente sabe  que o melhor divã é uma pele tão macia e aconchegante. Muitos de nós nos encontramos num “carrossel”, onde “Ana ama Lauro, Lauro ama Sintia, Sinta ama Cláudio, Cláudio que sonha com Ana”. A vida é assim mesmo, uma cumplicidade de flor e espinho. Mas agente encontra o que realmente procura. Porém não vá pensando que o amor é uma laranja, quando você é uma metade em busca da outra. Será que nós amamos uma pessoa pela metade? Eu penso que não. E aquela velha frase “Amor à primeira vista”, bem será que você realmente encontra e sente isso em apenas uma vez ou não? Talvez você não saiba de cara, apenas se sente bem, confortável…aí você resolve arriscar, apostar. E antes que você perceba, você pensa: “É, é isso…Deve ser amor”. Particularmente eu penso que você sabe imediatamente quando você ver e tudo o que acontece só prova que você esteve certo desde o primeiro momento.